A malha
Nota do compilador — O que segue é a transcrição das últimas seis entradas encontradas no diário de trabalho de Jacobo Grinberg-Zylberbaum, neurocientista mexicano e fundador do Instituto Nacional para o Estudo da Consciência. Jacobo Grinberg desapareceu em 8 de dezembro de 1994. O caderno — e a teoria sintérgica que ele desenvolvia — ficaram sobre a mesa. A caneta ainda estava no lugar.
18 de novembro de 1994
Choveu hoje no final da tarde, aquele chuvisco que a Cidade do México faz no outono, fino e teimoso. Fiquei no instituto até as oito da noite revendo os registros da sessão de ontem. Paulo e Fernanda — não usarei os nomes completos aqui, protocolo — ficaram trinta e dois minutos em meditação face a face antes da separação. Os EEGs na fase de contato mostram uma sincronização que continua me surpreendendo depois de anos de experimentos. Não é mágica. É malha. É o campo atuando sobre dois decodificadores ao mesmo tempo.
Voltei para casa. Elena tinha guardado o jantar. Os filhos já dormiam. Comi em pé na cozinha, olhando pela janela a rua molhada. Amanhã temos nova sessão com um par diferente. Estou esperando algo.
24 de novembro de 1994
A sessão de hoje produziu um dado que precisarei verificar antes de anotar no registro oficial.
Às quatorze horas e trinta e sete minutos, apliquei o estímulo luminoso ao voluntário da sala A. O pico de atividade no EEG dele foi imediato e claro, como esperado. O que não era esperado — o que nunca foi esperado, em nenhuma das sessões anteriores — foi o que apareceu no EEG da voluntária da sala B.
O pico dela veio antes.
Não simultâneo. Antes. Revi a gravação quatro vezes. Calibrei o equipamento. Calculei a margem de erro possível nos dois registradores. A antecipação não é ruído. É sinal.
Fiquei sentado no laboratório vazio até as onze da noite. Não escrevo aqui o que estou pensando. Ainda não.
28 de novembro de 1994
Três sessões, três dias consecutivos. Pedi para o assistente não entrar na sala de monitoramento enquanto eu revisava as fitas.
O efeito ocorreu nas três. Em proporções diferentes — às vezes uma fração de segundo, hoje quase meio segundo inteiro. A voluntária da sala B respondendo a um estímulo que ainda não tinha acontecido na sala A.
Existem explicações. Preciso esgotar cada uma antes de escrever qualquer coisa oficial. Erro de sincronização dos relógios dos dois equipamentos — verificado e descartado. Vazamento sonoro entre as salas — as salas foram projetadas pra bloquear até frequência de rádio. Sugestionabilidade do voluntário B — impossível; B não sabe o protocolo da sessão, entra na sala blindada sem instrução além de “relaxe”.
Se a malha transporta informação instantaneamente entre dois campos conscienciais previamente em contato, por que não a transportaria em qualquer direção — inclusive contra o fluxo que chamamos de tempo?
Não escrevo mais hoje. Estou com dor de cabeça.
2 de dezembro de 1994
Não consegui dormir direito em quatro dias. Elena perguntou se estou bem. Disse que sim. Estou.
Só que há uma pergunta que não sai: se o cérebro é apenas o decodificador — se a realidade que percebo é o sinal processado, não o sinal bruto — então o que acontece quando o decodificador aprende a receber frequências que normalmente filtra?
Passei a tarde reescrevendo o capítulo dezesseis. Não o corrigi. Escrevi por cima. A versão nova é mais simples. Uma frase: a malha não tem lado de fora.
Fui buscar os filhos na escola. No caminho de volta, o menor perguntou o que é consciência. Disse que é o jeito que a gente escuta o universo. Ele aceitou e voltou a olhar pela janela do carro.
5 de dezembro de 1994
Fiz algo hoje que não consta no protocolo e que não vou reportar formalmente.
Entrei na sala de isolamento. Sentei na cadeira do voluntário. Pedi para o assistente sair do corredor. Coloquei os eletrodos em mim mesmo, liguei o EEG do meu lado, e fiquei em silêncio por vinte minutos.
Não havia voluntário na outra sala. Não havia estímulo programado. Não havia nada além de mim, o equipamento e o que quer que a malha carregue quando não há interferência de protocolo.
Não vou descrever o que o EEG registrou.
Vou descrever o que senti: no décimo quarto minuto, alguma coisa parou. Não o coração — verificado, estável. Não a respiração — verificada, lenta e regular. O que parou foi algo que eu não tinha nome para nomear, e que, quando voltou, voltou diferente. Como se o decodificador tivesse encontrado um canal que não estava no dial.
Fiquei sentado por mais quarenta minutos depois que o equipamento desligou. Quando saí, o instituto estava vazio. Eram quase dez da noite.
Estou aqui agora escrevendo isso na mesa do escritório com a lamparina acesa porque não quero acender a luz grande. Tenho a percepção — não é medo, preciso ser preciso — tenho a percepção de que o espaço nesta sala é mais espesso do que era ontem. Como se houvesse mais informação por centímetro cúbico. Como se eu estivesse decodificando mais do que antes.
Talvez seja cansaço. Talvez seja outra coisa.
Amanhã tenho reunião no departamento às nove. Depois, sessão com novo par às quatorze. Depois, quero reler a sequência completa dos registros de novembro antes de escrever o relatório final.
Tenho muito a fazer. É bom ter muito a fazer.
8 de dezembro de 1994
Quatro dias para os quarenta e oito. Elena disse que os filhos querem fazer um bolo.
Esta manhã acordei antes do alarme. Fiquei deitado no escuro por alguns minutos, olhando o teto. Havia um pensamento muito claro — mais claro do que os pensamentos costumam ser logo ao acordar — e o pensamento era este: a malha não é onde a consciência vai. É de onde ela vem.
Se isso for verdade — e os dados de novembro sugerem que pode ser — então a pergunta não é se é possível acessar a malha. A pergunta é se é possível
