O círculo no calendário

O círculo no calendário

O trem está parado há onze minutos, e ninguém disse nada. Pelo menos é o que penso, porque fui eu quem começou a contar quando a luz do vagão piscou pela primeira vez, e pisca de novo agora, e penso que talvez esteja apenas cansada, talvez tenha sido um dia longo, talvez o trem já tenha andado e eu não tenha percebido, mas o relógio digital acima da porta marca o mesmo horário, e o painel que deveria anunciar a próxima estação está apagado, e olho para os lados procurando alguém que também esteja olhando, alguém com quem trocar aquele meio sorriso de cumplicidade que as pessoas trocam quando o trem para e ninguém sabe por quê, mas ninguém olha de volta, todos com os pescoços inclinados sobre os telefones, mexendo na tela, deslizando o dedo para baixo, para cima, para baixo, e percebo então que eles não estão lendo nada, estão apenas mexendo, e tiro o meu próprio telefone do bolso e vejo que também não tenho sinal, e por algum motivo não acho estranho que ninguém esteja reclamando, que ninguém esteja levantando, que ninguém esteja chamando o segurança, todos calmos, todos olhando para a tela cinza, e quando o trem finalmente volta a andar, doze minutos depois, ninguém comemora, ninguém suspira de alívio, e guardo o telefone e percebo, ali, que essa foi a terceira vez naquela semana.


À noite, em casa, a minha filha pergunta por que a luz piscou.

— Não piscou, filha.

— Piscou três vezes.

— Imaginação sua. Vai dormir.

Ela vai dormir, mas eu não. Fico na sala com a luz apagada olhando pela janela, contando os carros que passam na rua, e percebo que passam menos do que antes, três por minuto, dois por minuto, um, e faço o que os adultos não querem fazer quando descobrem alguma coisa: não digo nada, mas guardo. No dia seguinte vou contar os carros de novo. E no outro. E no outro.


De manhã passo na padaria da esquina. O padeiro está explicando, pela terceira vez naquela manhã, que a farinha tem chegado em menor quantidade, sabe como é, dona, problema no caminhão, falta motorista, falta combustível, ninguém me explica direito, e o senhor à minha frente, de camisa engomada que vai trabalhar de gravata mesmo no calor, responde que no escritório dele também sumiu o papel da impressora, faz duas semanas, o chefe disse para imprimir só o essencial, e agora cada um decide sozinho o que é essencial, e os dois riem da coincidência, riem alto, como se rir fosse importante, e o padeiro embrulha o pão que está visivelmente menor do que era no mês passado mas cobra o mesmo preço, e o senhor paga sem reclamar, e quando chega a minha vez compro o mesmo pão, pago o mesmo preço, e saio da padaria sem dizer nada sobre a placa luminosa da farmácia em frente que está apagada, e tento lembrar desde quando, e não consigo, e sigo andando, porque estou atrasada, ou porque acho que estou atrasada, ou porque andar é melhor do que ficar parada pensando em quanto tempo a placa daquela farmácia está apagada.


Nesta noite a família senta para jantar às oito, como sempre, e o meu marido serve o arroz, e eu sirvo o feijão, e o meu filho mais novo pergunta se vai ter sobremesa e digo que hoje não, filho, hoje não, e o meu filho mais velho chega atrasado, suado, e o meu marido pergunta o que houve, e o mais velho diz que o ônibus não passou, que esperou quarenta minutos, depois cinquenta, depois desistiu e andou, e o meu marido pergunta quantos quilômetros, e o mais velho diz doze, e ninguém na mesa diz mais nada por um instante, porque doze quilômetros é uma distância que os nossos filhos não costumam andar a pé, doze quilômetros é a distância que se faz de carro ou de ônibus, e o meu marido tenta levantar o assunto da televisão, mas a televisão está sem sinal há duas horas, e ele tenta levantar o assunto do trabalho, mas hoje ninguém quer falar do trabalho, e eu pergunto se alguém quer mais arroz, e o mais novo diz que sim, e sirvo, e percebo que a panela está quase vazia, e faço a conta de cabeça do quanto comprei no início do mês e do quanto sobrou, e a conta não fecha como costumava fechar, e não digo nada, apenas sirvo, e o meu marido tenta puxar conversa sobre o final de semana, propõe ir ao parque, ao cinema, e os meninos olham para ele com aquele olhar que os filhos olham para os pais quando os pais estão tentando consertar com palavras alguma coisa que palavras não consertam, e o mais velho diz que o cinema fechou, pai, faz duas semanas, e o meu marido diz que não sabia, e o mais velho diz que ninguém sabia direito, ninguém avisou, simplesmente fechou, as luzes se apagaram, e o cartaz do próximo filme ficou lá, no escuro, atrás do vidro, ninguém tirou, e continuamos jantando, e percebo que o feijão tem menos gosto do que antes, talvez por causa do tempero, talvez porque esqueci de pôr alho, talvez porque o alho já não tem o mesmo gosto, e o jantar termina em silêncio, e o mais novo pergunta de novo da sobremesa, e digo amanhã, filho, amanhã eu compro, e o meu marido e eu trocamos um olhar que dura mais do que devia, e os dois sabemos que amanhã eu posso não conseguir comprar, mas amanhã é amanhã, e por enquanto ainda estamos jantando, ainda estamos juntos, ainda estamos à mesa, e isso, por enquanto, parece ser o suficiente.


Depois que todos vão dormir fico na sala e abro o livro que estou lendo há semanas, um livro sobre povos que desapareceram, civilizações que se desfizeram, cidades que foram engolidas pela areia, pela floresta, pelo tempo, e percebo agora, com mais clareza do que percebi antes, que em todos os capítulos a mesma palavra aparece repetida, sussurrada quase, como se os autores tivessem medo de dizê-la em voz alta: silenciosamente. Não houve estrondo. Não houve aviso. Não houve último grito. As pessoas continuaram fazendo o que faziam, e um dia simplesmente não fizeram mais, e ninguém estava lá para anotar o último dia. Fecho o livro. Olho pela janela. A rua está exatamente como ontem. Os carros passam, ainda passam, as pessoas caminham, o poste da esquina ilumina mais ou menos o mesmo pedaço de calçada. Exatamente como ontem. E é isso, exatamente isso, que me apavora.


Da janela vejo a Dona Lurdes varrendo a calçada. São seis da manhã e ela varre, como faz há quarenta anos. O carteiro não passa há três semanas, mas ela continua varrendo. A vizinha do número dezessete, que costumava sair para o trabalho às sete e meia em ponto, agora sai às nove, ou às dez, ou não sai, e a Dona Lurdes não pergunta, a Dona Lurdes varre. A vassoura é a mesma de sempre, o gesto é o mesmo de sempre, a calçada é a mesma de sempre, só os outros é que mudaram, deve pensar ela, e por isso continua. Alguém precisa continuar.


Vou até a cozinha pegar água. Abro a geladeira e o reflexo do calendário de parede aparece na porta de metal. Fecho a geladeira e olho para o calendário. Treze de novembro está circulado a lápis. Franzo a testa. Não fui eu quem circulou. Não me lembro de ter circulado. Olho para trás, para ver se tem mais alguém acordado em casa, mas não tem. Olho para o calendário de novo. Treze de novembro. Está a três meses daqui. Pego o lápis em cima da geladeira, o mesmo lápis que uso para fazer a lista de compras, e quase, quase apago o círculo. Mas não apago. Deixo lá. Vou para a cama. E quando me deito, fico de olho aberto no escuro, contando os carros que passam na rua. Passam três por minuto. Depois dois. Depois um.

Treze de novembro.

Alguém circulou.

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