São José de Madeira
No Caosmetria, toda semana a gente mede o caos por trás do que parece óbvio. Hoje o tema é a maior tragédia climática da história do Brasil: a Grande Seca de 1877 — e o fenômeno que a causou, o El Niño, que a ciência acaba de confirmar de volta. Antes de mostrar os números (e o vídeo abaixo mostra), deixei que Ariano Suassuna contasse primeiro, pela voz de um sertanejo que viveu aquilo na pele. A crônica é ficção; a terra que ela pisa, não. Veja mais Contos do Caos.
I
Meu pai dizia que São José era homem de palavra. Todo dezenove de março, antes de o sol botar a cara por cima da serra, ele tirava o santo do oratório, limpava o pó do rosto dele com a manga da camisa e o punha na janela, virado pro nascente — pra que o santo enxergasse a chuva chegar antes de nós. “É de respeito”, ele dizia. “Quem pede um favor não vira as costas pro pedido.”
E o santo cumpria. Eu cresci vendo. Era um São José de madeira escura, velho de três gerações, com um lado da cara já comido pelo cupim, mas era o nosso. Viera do pai do meu pai, e em cada um daqueles homens o santo ouvira a mesma reza e respondera com a mesma água. Quando a trovoada estourava pras bandas do Cariri, minha mãe acendia uma vela de cera de abelha e a gente se ajoelhava diante daquele toco de pau como se ele tivesse aberto o céu com as próprias mãos de carpinteiro.
Naquele tempo, o mundo era uma coisa só e fazia sentido. Plantava-se no inverno, colhia-se o feijão e o milho, o gado engordava na caatinga verde, e quando o verão apertava a gente esperava — porque depois do verão sempre, sempre vinha o inverno de novo. O sertão era um pai severo: batia, mas não matava. A vida girava como a roda do carro de boi: rangendo, mas girando.
Eu tinha onze anos quando São José faltou com a palavra.
II
Lembro do dezenove de março daquele ano como quem lembra do rosto de um morto. Meu pai pôs o santo na janela igual a sempre. Esperamos a semana santa. Esperamos abril. O céu ficava toda tarde daquele azul de faca, sem uma nuvem, um azul bonito e cruel que a gente aprendeu a odiar. “Ainda vem”, meu pai dizia, e ia dormir de olho aberto. Maio chegou seco. A gente entendeu que não era um verão. Era outra coisa, uma coisa sem nome, que tinha vindo de longe e sentado em cima do sertão pra não sair mais.
Primeiro foi a roça. O milho nasceu da altura de um palmo e amarelou de pé, como se tivesse vergonha. Depois foi o juazeiro, que é a última árvore a desistir — quando o juazeiro perde a folha, o sertanejo sabe que Deus está distraído. Depois foi o açude, que virou um espelho, depois uma poça, depois um chão rachado em escamas, igual ao couro de um bicho que ninguém quis enterrar. A gente media o tempo pela água que descia no pote. Quando o pote começou a cantar oco, minha mãe parou de cantar junto.
O gado foi a parte que ninguém me avisou que doía. Vaca não chora, mas geme, e eu não sabia disso. A Estrela, que me conhecia desde menino e lambia minha mão procurando sal, foi ficando cada dia mais parecida com a cerca onde se encostava — só pau e couro. Meu pai, que era homem de não chorar na frente dos filhos, levou a Estrela pro fundo do quintal numa madrugada e voltou sem ela e sem dizer nada. Comemos calados naquele dia. Ninguém botou o nome da carne na mesa.
A fome no sertão não chega de uma vez, ela vai chegando, educada, como visita ruim. Primeiro tira o que é bom: tira o café, tira a rapadura. Depois tira o de costume: o feijão, a farinha. Depois ela se senta na cabeceira da mesa e come com a gente, e a gente faz de conta que não vê. Mamãe esticava o pouco que tinha com xique-xique e raiz de imbuzeiro, cozinhava couro velho até virar um caldo que enganava a barriga por uma hora. “Come devagar”, ela dizia, “que devagar dura mais.” A fome me ensinou a aritmética antes da escola: eu sabia dividir um beiju em três pedaços de tamanhos diferentes, e o menor era sempre o dela.
Foi por essa época que comecei a ver o sertão andar. As estradas, que sempre foram da gente que ia à feira e voltava, viraram um rio de gente que ia e não voltava. Famílias inteiras passando na frente de casa com a trouxa na cabeça e o santo no peito, caladas, olhando pra frente como quem foi proibido de olhar pra trás. Reconheci entre eles o velho Firmino, que tinha mais terra que todo mundo na ribeira, descalço, levando os netos pela mão. Terra não se come. Foi a coisa mais assustadora que aprendi naquele ano: que tudo que a gente achava que valia alguma coisa, na hora certa, não valia o peso de uma cuia d’água.
Meu pai resistiu mais do que devia, por orgulho e por fé. Toda noite ele olhava pro São José na janela e os dois ficavam se encarando no escuro, dois homens de madeira teimando um com o outro. Até que numa tarde de agosto — eu vi, estava no terreiro — ele pegou o santo da janela com uma raiva que eu nunca tinha visto nele, e o segurou no ar como quem vai jogar fora. Ficou assim um tempo, o braço tremendo. E aí minha mãe, sem dizer uma palavra, só chegou perto e pôs a mão no braço dele. Meu pai baixou o santo. Embrulhou São José num pano, com mais cuidado do que cuidava de si mesmo, e o pôs no fundo do mesmo saco onde ia o resto da nossa vida. “Ele vai com a gente”, foi tudo que falou. “Quem sabe lá adiante ele lembra de chover.”
III
Saímos de madrugada, pra não ver a casa de dia. A gente não fecha a porta quando sai pra nunca mais — fica esquisito fechar a porta de uma coisa que já morreu. Andamos pra onde todo mundo andava, pro lado onde diziam que tinha água, que tinha o governo, que tinha um navio que levava gente pro Norte, onde a floresta era tão molhada que doía. Eu carregava o santo. Coube a mim, o mais novo, porque era o mais leve e o santo era o mais pesado de tudo que a gente levava — não no braço, mas no resto.
No caminho eu vi coisas que guardei a vida toda e que não vou botar aqui, porque tem dó que não cabe em palavra e respeito que manda calar. Só digo isto: o sertão na estrada não tinha mais o nome das pessoas. Era “a mãe daquele menino”, “o velho do cachorro”, “a família de Pernambuco”. A seca tinha comido os nomes primeiro, antes de comer o resto. E eu segurava o São José de madeira com mais força a cada légua, não sei se protegendo ele ou me protegendo nele, sentindo na palma da mão a cara mordida pelo cupim, o lado que faltava, o santo incompleto que três gerações da minha gente tinham botado a vida em cima.
Cheguei. Nem todos da minha família chegaram, e eu não vou dizer quem, porque o senhor não tem direito ao meu choro, só à minha história. Vivi. Fiquei velho. O sertão um dia se lembrou de chover, como sempre se lembra, tarde, do jeito dele. E o São José de madeira está aqui comigo até hoje, na janela, virado pro nascente, com o lado da cara comido pelo tempo. Eu não tirei a teima dele. A gente velho aprende que santo não traz chuva — chuva vem do céu, e o céu tem lá os seus motivos, que a ciência de agora já mede, e dá nome, e quase consegue prever.
O que me tira o sono não é o que aquele céu fez com a gente em mil oitocentos e setenta e sete. É outra coisa. É uma conta que eu, sertanejo velho de pouca letra, fiz sozinho, olhando este mundo de agora — todo ligado por fio e por cano, tão grande e tão arrumadinho. Uma conta que eu bem queria estar errado. Mas isso já é assunto pra quem mede o caos. E eles mediram.
