O Defeito da Eternidade

O Defeito da Eternidade

No Caosmetria, toda semana a gente mede o caos por trás do que parece óbvio. Hoje a pergunta incomoda: por que o amor acaba? Antes de a ciência responder — e ela responde, no vídeo abaixo — deixei que Machado de Assis confessasse primeiro. A crônica é ficção; o relógio que ela descreve, infelizmente, não é. Veja mais Contos do Caos.

Não pretendo, leitor, comover-te com esta história. Pretendo confessá-la apenas — que a confissão é o derradeiro luxo dos homens que já nada têm a perder, e eu perdi, há tempos, a coisa mais cara que um sujeito pode possuir: a certeza de que amava para sempre.

Chamemo-la Cecília. O nome verdadeiro não convém à decência e, ademais, já o esqueci — o que comprova, logo na primeira linha, exatamente aquilo que vim aqui contar.

I

Conheci-a num inverno, à mesa de um casamento alheio, porque é sempre nas felicidades dos outros que principiam as nossas desgraças. Serviam o doce. Ela riu de uma tolice que eu disse, e eu, que até ali me julgava homem de juízo, senti no peito uma desordem que nenhum doutor saberia batizar. Não era o coração, propriamente. Era coisa mais funda e mais antiga — uma espécie de relógio que alguém, sem me pedir licença, acabara de dar corda.

Daí em diante, fui um homem ocupado. Ocupado em pensar nela, que é o mais exaustivo dos empregos e o único que não paga ordenado. Não comia. Não dormia. Lia três vezes a mesma mensagem e descobria em cada vírgula um sentido que o bom Deus jamais pusera ali. Os amigos diziam-me transformado; eu corrigia-os, soberbo: dizia-me, enfim, inteiro.

Recordo uma noite de aguaceiro em que a esperei duas horas à porta de um teatro, encharcado do chapéu às botas, jurando a mim mesmo que aquilo era a felicidade. Quando ela chegou, atrasada e seca sob o guarda-chuva, disse-me apenas:

— Você está todo molhado. Que loucura.

— É a senhora que me deixa assim — respondi, e achei-me o homem mais espirituoso da cidade.

Convém que se diga, para honra da verdade, que Cecília nada tinha de extraordinário. Era bonita como são bonitas as moças de vinte anos, nem mais nem menos. Mas eu a via cercada de uma luz particular, dessas que não existem na natureza e que o apaixonado traz consigo, acesa, como um lampião furtado. Tudo nela me parecia obra de mão caprichosa: o modo de torcer o lenço, a impaciência, até os defeitos — sobretudo os defeitos, que eu colecionava como relíquias.

Não me orgulho de tudo. Houve ciúmes, e dos baixos. Vigiei portas, contei minutos de atraso, fiz interrogatórios disfarçados de conversa fiada. Um sorriso que ela dirigisse a outro era, para mim, um pequeno terremoto particular. Hoje sei que aquilo não era amor, ou não era só amor: era a tal corda esticada ao máximo, a máquina girando numa rotação que motor nenhum suporta por muito tempo. Mas quem, no meio do incêndio, pára para discutir a química do fogo?

Foi nessa temporada de cegueira luminosa que cometi a imprudência de todos os homens: jurei. Jurei-lhe, numa tarde, à janela, que aquilo não acabaria nunca. Disse “nunca” com a maior das convicções, como quem assina um contrato sem ler as cláusulas pequenas. Ela acreditou. Pior: eu também.

II

Não direi quanto tempo durou, porque os números, nestas matérias, são indiscretos. Direi apenas que durou o que duram essas coisas — nem um dia mais do que a engrenagem permitia, nem um dia menos do que a vaidade exigia.

A mudança não principiou com trovões. As coisas verdadeiramente graves nunca principiam com trovões; chegam de fininho, pela porta dos fundos. Primeiro foi o teatro. Estávamos nós a uma comédia e, no meio de uma graça que seis meses antes me teria arrebatado, dei comigo a calcular quanto faltava para o último ato. Espantou-me a conta. Repreendi-me. Atribuí-a ao calor, à peça, à digestão — a tudo, enfim, menos à verdade, que é sempre o último suspeito a ser interrogado.

Mas a verdade tem paciência, e esperou-me na manhã seguinte, à mesa do café, com a tranquilidade de quem sabe que ninguém lhe escapa.

Cecília falava. Falava de uma prima, de um chapéu, de uma intriga de vizinhança — não me lembro. Falava como sempre falara. E eu, observando-a por sobre a borda da xícara, aguardei o costumeiro tumulto no peito, o tal relógio, a tal luz furtada. Aguardei. E nada. A xícara esfriou-me na mão. Cecília continuava bonita como as moças de vinte anos, nem mais nem menos — mas agora era exatamente isso, nem mais nem menos, e a luz particular se apagara sem cerimônia, como se alguém houvesse soprado o lampião enquanto eu olhava para o lado.

Assustei-me, leitor. Não com ela: comigo. Procurei nela um defeito novo que desculpasse o meu desencanto, pois é mais cômodo acusar o objeto do que confessar avaria no instrumento. Não achei nenhum. Cecília era a mesma. A prima era a mesma, o chapéu o mesmo, a mesma a intriga. Quem mudara de senhorio era eu — ou, para ser exato, alguma peça dentro de mim, que cumprira o seu expediente e se fora embora sem entregar aviso prévio.

Sobreveio então a estação morna, que poupo ao leitor em seus pormenores, por serem todos iguais e todos medíocres: os jantares calados, em que o tilintar dos talheres fazia as vezes de conversa; os carinhos cumpridos por obrigação, como quem paga imposto. O afeto não morreu de uma vez — foi-se em prestações, num gotejar tão lento que só se percebia o vazamento pela conta no fim do mês.

— Você está diferente — disse-me ela uma noite, com aquela pontaria que as mulheres têm para o que ainda não confessamos nem a nós próprios.

— Estou apenas cansado — menti, e era a primeira de muitas mentiras, todas inúteis, porque o cansaço de que eu padecia não se cura com sono.

III

Separamo-nos sem escândalo, que é a mais triste das separações. Não houve carta rasgada nem prato pelos ares; houve dois sujeitos educados reconhecendo, à distância, que o tal relógio emudecera. Casou-se ela depois com um homem sério, de horários certos, e dizem que é feliz — o que me alegra e, confesso, me agrava um tantinho, porque a felicidade alheia traz sempre um quê de censura.

Levei anos a entender o que me sucedera. E o que entendi, leitor, foi isto — e rogo-te que o recebas sem o riso fácil: não fui traído por Cecília, nem por mim, nem pelo destino. Fui traído por um defeito de fábrica. A eternidade que me venderam à janela vinha, como certos relógios baratos, com um prazo escondido no fundo do mostrador. E o pior é que esse prazo não constava em letra miúda de contrato algum: estava dentro de mim, marcando as horas em surdina, e desligou-se sozinho na data combinada, sem me consultar, à maneira das melhores e das piores coisas da nossa máquina.

Cheguei a consultar um amigo médico, desses que tudo explicam e nada curam. Ouviu-me com paciência profissional e respondeu, dando de ombros, que o coração tem as suas estações como as tem o ano, e que o inverno chega sem pedir licença. Achei a frase bonita e falsa, como quase tudo o que é bonito. Pois não fora estação o que me acontecera: estação volta. O que me acontecera tinha cara de mecanismo, de coisa programada lá atrás, num escritório que não conheço, por um relojoeiro que não me deixou o endereço.

Por muito tempo julguei-me uma exceção infeliz. Depois desconfiei de que era a regra, e de que toda aquela gente que jura amor perpétuo apenas ainda não chegou ao capítulo em que o lampião se apaga. Olho hoje os noivos com a ternura com que se observa um sujeito prestes a escorregar numa casca de banana que só nós enxergamos: não os previno, porque ninguém me preveniu, e porque há tombos que é preciso levar em pessoa.

E contudo — eis a digressão que me custou a paz —, ouvi dizer, anos mais tarde, de fonte que por prudência não cito, que nem todos os relógios param. Que existem casais, poucos, raríssimos, em que a tal luz furtada teima em arder décadas adentro, sem que ninguém saiba explicar o milagre ou a manobra. Juraram-me que não é sorte, nem fado, nem santo de devoção — que é coisa que se faz, um truque, um pequeno golpe desferido contra a própria engrenagem.

Esta notícia, confesso, tirou-me o sono que Cecília já não me tirava. Pois se há um modo de enganar o relógio, então o meu não parou por fatalidade: parou por ignorância. E não existe vexame maior, para um homem que se supunha de juízo, do que descobrir, tarde, que havia uma cláusula de salvação e que ele a perdeu por preguiça de ler o manual.

Qual seja o truque, não te direi — primeiro, porque a esta altura já deves desconfiar de que eu não o sei; segundo, porque andam por aí uns sujeitos estranhos que afirmam tê-lo medido, cronometrado, posto a limpo, com a frieza de quem disseca uma borboleta para lhe entender o voo. Procura-os, leitor, se tens estômago para a verdade. Eu, de minha parte, fico com esta confissão e com o meu lampião apagado — que a esta idade já não se acende lampião. Acende-se, quando muito, uma vela. E mesmo essa a gente protege do vento, a mão em concha sobre a chama, fingindo, contra toda a evidência, que é para sempre.

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