O Relatório que Não Souberam Ler
Nota do compilador — O documento a seguir foi encontrado entre os papéis não catalogados da Operação Prato, a investigação militar conduzida pela Força Aérea Brasileira no Pará entre 1977 e 1978. Não traz assinatura completa, apenas a patente e três iniciais. Reproduzimos o texto como testemunho de um OVNI no Brasil — um entre os muitos que os arquivos guardaram e nunca explicaram. Sobre a autenticidade, nada afirmamos. Há coisas que o Estado mede e arquiva; há coisas que ele apenas arquiva. Leia mais em Contos do Caos e, se tiver estômago, confronte o registro oficial da Operação Prato — talvez o mais perturbador caso de OVNI no Brasil já assumido por um governo.
OVNI no Brasil — Colares, outubro de 1977
Eu cheguei à ilha acreditando em radar.
Essa é a primeira coisa que preciso que entendam, vocês que vão ler isto se é que alguém vai. Eu era um homem de instrumentos. Vinte e seis anos, treinado para confiar no que a agulha marca, no que a película revela, no que o relatório consolida em três vias. Se não aparece no equipamento, não existe. Era essa a minha fé, e era uma fé boa, daquelas que deixam um homem dormir.
Dormi bem na primeira noite. Não dormi mais nenhuma desde então.
A vila era pobre e quente, casas de palafita debruçadas sobre um rio que à noite ficava preto como óleo. Os moradores nos receberam com aquela mistura de alívio e desconfiança de quem chama a autoridade sem acreditar que a autoridade vá servir para alguma coisa. Falavam de uma luz. A luz, diziam, sempre no singular, sempre baixando a voz, como se nomeá-la no plural pudesse convocar mais de uma.
Chamavam de Chupa-Chupa. Eu anotei o termo no caderno com um certo divertimento. Folclore, pensei. Toda região tem o seu.
Mostraram-me as marcas. Foi aí que o divertimento começou a escorrer de mim como água entre os dedos.
As marcas
Eram dois furos. Sempre dois, lado a lado, em geral no seio ou na coxa, e ao redor deles a pele assava num círculo perfeito, vermelho-arroxeado, como se algo tivesse sugado por baixo da carne sem romper a superfície. A médica militar que nos acompanhava — uma mulher dura, que eu nunca vi hesitar — passou os dedos sobre uma daquelas marcas numa jovem e recolheu a mão depressa demais.
“Não é queimadura de fogo”, ela disse. E não disse mais nada, o que nela era a coisa mais alarmante que eu poderia ter ouvido.
Eu fotografei. Era o meu ofício, fotografar, medir, consolidar. Enchemos rolos e mais rolos. Eu media a circunferência das lesões com uma régua de metal e anotava os números em três vias, e os números eram sempre os mesmos, idênticos demais, repetidos com uma precisão que nenhum animal e nenhuma doença respeitam. A natureza é desleixada. Aquilo não era desleixado. Aquilo tinha método.
E eu, que acreditava em instrumentos, comecei a entender que estava medindo a assinatura de algo que media de volta.
A noite do rio
Foi na terceira semana que eu a vi.
Estávamos no trapiche, eu e mais dois, o equipamento montado, o radar portátil zunindo sua canção morna de sempre. A tela estava limpa. Lembro disso com uma nitidez que me persegue: a tela estava limpa. Não havia nada. O instrumento, a minha fé, o meu deus de agulha e película, jurava sobre o seu silêncio eletrônico que o céu acima de nós estava vazio.
Então o soldado mais novo tocou meu ombro e apontou para cima sem conseguir falar.
Desceu sobre o rio devagar. Não caiu, não voou — desceu, com a paciência de quem tem todo o tempo do mundo e nenhuma pressa de ser compreendido. Uma luz, e dizer “luz” é trair o que vi, porque a luz que conhecemos ilumina, e aquilo não iluminava nada, aquilo parecia engolir a claridade ao redor de si e devolvê-la errada, num tom que meus olhos recusavam a nomear, um tom que não pertencia à parte do mundo que nos foi dada para ver.
Eu olhei para o radar. A tela continuava limpa.
E foi nesse instante — entre a coisa no céu e o vazio na tela — que algo se rompeu dentro de mim, em silêncio, como uma viga que cede sem barulho na estrutura de uma casa. Porque só havia duas conclusões possíveis, e ambas eram intoleráveis. Ou o meu instrumento estava cego. Ou aquilo que descia sobre o rio havia escolhido não ser visto por ele.
Eu não sei qual das duas é pior. Ainda não sei. Penso nisso toda noite.
O que não cabe no relatório
Ficou sobre a água por talvez nove minutos. Eu contei — claro que contei, eu era um homem de números, e os números eram a única corda que me restava para não cair no poço que se abria sob a minha razão. Nove minutos. Durante todos eles, nenhum de nós três conseguiu se mover, e não por medo, ou não só por medo. Era como se a coisa exigisse de nós uma atenção total, como se pensar em outra coisa, piscar, respirar fundo, fosse uma grosseria que ela não toleraria.
Houve um som. Vou tentar descrevê-lo e vou falhar. Não foi um zumbido, não foi um motor. Foi metálico, sim, mas da forma como um sino é metálico — uma vibração que eu senti nos dentes, no esmalte, na raiz das coisas que em mim eram sólidas. E sob aquele som, ou dentro dele, tive a impressão nítida, absurda, insuportável, de que estava sendo catalogado. De que aquilo que eu passara semanas medindo havia, naqueles nove minutos, me medido por inteiro, e arquivado, e perdido o interesse.
Depois subiu. Não houve clarão, não houve estrondo. Subiu como tinha descido, e o rio voltou a ser apenas um rio preto, e o radar zuniu sua canção morna, e a tela estava limpa, e esteve limpa o tempo todo, e essa é a frase que eu não consigo arrancar de dentro da cabeça.
A tela esteve limpa o tempo todo.
O arquivo
Voltamos com quinhentas fotografias. Voltamos com horas de filme e quilos de relatório, três vias de tudo, números, círculos, depoimentos, mapas. Eu entreguei a minha parte a um superior cujo rosto eu já não lembro, e ele folheou as páginas com a expressão de quem confere uma nota de mercado, e disse que eu havia feito um bom trabalho.
Um bom trabalho.
Perguntei o que aconteceria com aquilo. Ele me olhou por um tempo longo demais e disse uma única palavra, a palavra que desde então virou para mim o som mais aterrível da língua portuguesa, mais que qualquer grito, mais que qualquer nome de demônio:
“Arquivado.”
E foi. Caixa, prateleira, escuridão, décadas. Eu me perguntei durante anos por que eles não destruíram tudo, se era para enterrar. Hoje eu entendo. Eles não destruíram porque, no fundo do fundo, queriam que um dia alguém soubesse — só não queriam ser eles a contar. Dividiram o peso com o futuro. Empurraram a coisa para frente, para vocês, para quem lê isto agora com o conforto de achar que é literatura.
Eu invejo esse conforto.
O que ficou
Já se passaram muitos anos. Sou um homem velho e ainda meço coisas, por hábito, por vício, porque é a única reza que sei. Meço a pressão, meço a glicose, meço os passos da varanda até o portão. E a cada medida eu penso na tela limpa, e na coisa que escolheu não estar nela, e no fato — porque é um fato, eu vi, eu anotei em três vias — de que existe no mundo algo que nos observa por baixo dos nossos instrumentos, com método, com paciência, e sem o menor interesse em ser compreendido.
As pessoas hoje filmam luzes no céu com aqueles telefones e ganham multidões de seguidores e os jornais publicam que a Força Aérea “nada detectou”. E eu rio, um riso que não tem nenhuma graça dentro, porque eu sei o que “nada detectou” significa. Eu estive do outro lado da agulha. Eu sei que a ausência no instrumento não é a ausência da coisa.
A coisa esteve sempre lá. Sobre o rio preto. Sobre a serra. Sobre todos nós.
A tela é que estava limpa.
E continua.
